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Segurança do plasma rico em plaquetas do sangue do cordão umbilical aplicado no espaço sub-retiniano em pacientes com atrofia geográfica associada à DMRI

Autores

Stanislao Rizzo; Maria Cristina Savastano; Benedetto Falsini; Patrizio Bernardinelli; Francesco Boselli; Umberto De Vico; Matteo Mario Carlà; Federico Giannuzzi; Claudia Fossataro; Gloria Gambini; Emanuele Crincoli; Silvia Ferrara; Matteo Ripa; Rafael Killian; Clara Rizzo; Caterina Giovanna Valentini; Nicoletta Orlando; Giorgio Placidi; Luciana Teofili; Alfonso Savastano.

DOI: 10.1016/j.xops.2024.100476Tipo de publicação: artigo científico de acesso aberto.


Propósito

O estudo teve como objetivo principal analisar a segurança da aplicação sub-retiniana de plasma rico em plaquetas obtido do sangue do cordão umbilical, denominado CB-PRP.

Além da segurança, os pesquisadores também investigaram se o procedimento poderia produzir algum sinal preliminar de benefício em olhos com atrofia geográfica relacionada à forma seca da degeneração macular relacionada à idade.


Projeto

O trabalho fez parte do Estudo Si.Cord, iniciado em janeiro de 2021 e conduzido com acompanhamento clínico de 12 meses.

Tratou-se de um ensaio clínico:

  • intervencionista;

  • aberto;

  • unicêntrico;

  • não randomizado;

  • com alocação sequencial.

A pesquisa foi realizada na Fondazione Policlinico Universitario Agostino Gemelli IRCCS, em Roma, Itália.

O estudo foi registrado no ClinicalTrials.gov sob o código NCT04636853.


Participantes

Foram incluídos 13 pacientes, totalizando 26 olhos, todos com atrofia geográfica bilateral associada à degeneração macular relacionada à idade.

Em cada paciente, o olho com comprometimento mais avançado foi escolhido para receber o tratamento. O olho contralateral permaneceu sem tratamento e foi utilizado como controle para comparação.

Todos os participantes concluíram o período de acompanhamento de 12 meses.


Intervenção

Os 13 olhos selecionados foram submetidos a vitrectomia de calibre 23 G.

Após a vitrectomia, foi realizada uma injeção sub-retiniana de CB-PRP por meio de uma agulha de calibre 41.

O produto foi preparado a partir de unidades de sangue de cordão umbilical avaliadas, processadas e armazenadas de acordo com as normas italianas aplicáveis aos componentes sanguíneos destinados ao uso não transfusional.


Principais resultados e medidas avaliadas

Os pesquisadores analisaram os seguintes parâmetros:

  • acuidade visual melhor corrigida, medida pela escala de letras ETDRS;

  • espessura macular central, avaliada por tomografia de coerência óptica;

  • dimensão da área atrófica, calculada em imagens de OCT en face;

  • atividade funcional da retina por eletrorretinograma focal;

  • resposta da via visual por potencial evocado visual de cintilação.

As avaliações ocorreram:

  • no início do estudo;

  • após 1 mês;

  • após 3 meses;

  • após 6 meses;

  • após 12 meses.


Resultados

No grupo tratado, a média da acuidade visual melhor corrigida foi de:

  • 34,46 letras ETDRS no início;

  • 40,84 letras após 1 mês;

  • 40,07 letras após 3 meses;

  • 39,38 letras após 6 meses;

  • 35,84 letras após 12 meses.

Nos olhos não tratados, os valores médios foram:

  • 53 letras ETDRS no início;

  • 51,54 letras após 1 mês;

  • 46,62 letras após 3 meses;

  • 46,85 letras após 6 meses;

  • 43,92 letras após 12 meses.


A análise estatística não demonstrou uma interação significativa entre tratamento, olho e tempo para a acuidade visual.

A espessura macular central também não apresentou diferença estatisticamente significativa entre os olhos tratados e não tratados ao final dos 12 meses.

A área de atrofia geográfica aumentou nos dois grupos durante o acompanhamento, como esperado para uma condição progressiva.

Entretanto, um dos achados mais relevantes foi a ausência de complicações atribuídas ao CB-PRP. Durante o estudo, não foram registrados:

  • inflamação intraocular;

  • endoftalmite;

  • descolamento de retina;

  • uveíte;

  • outras complicações relacionadas diretamente à injeção sub-retiniana.


Conclusões

Os resultados indicam que a injeção sub-retiniana de CB-PRP pode ser realizada com segurança em pacientes com atrofia geográfica associada à degeneração macular relacionada à idade seca.

Apesar do perfil de segurança favorável, o estudo não permite afirmar que o tratamento seja eficaz para interromper ou reverter a doença.

Os próprios autores destacam a necessidade de:

  • estudos com maior número de participantes;

  • pesquisas randomizadas;

  • acompanhamento mais longo;

  • investigação de outras formas de administração;

  • análise de possíveis aplicações repetidas.


Divulgação financeira

As informações sobre potenciais conflitos de interesse, relações comerciais e divulgações financeiras dos autores encontram-se nas notas de rodapé e na seção de divulgações do artigo original.


Palavras-chave

Degeneração macular relacionada à idade; atrofia geográfica; cirurgia vitreorretiniana; cirurgia macular; plasma rico em plaquetas; sangue do cordão umbilical; CB-PRP; retina.


Abreviações e acrônimos

DMRI: degeneração macular relacionada à idade.AVMC/BCVA: acuidade visual melhor corrigida.CB-PRP: plasma rico em plaquetas do sangue do cordão umbilical.EMC/CMT: espessura macular central.DMRI seca: forma não exsudativa da degeneração macular relacionada à idade.ERG-f: eletrorretinograma focal.PEV-f: potencial evocado visual por cintilação.AG: atrofia geográfica.OCT: tomografia de coerência óptica.OCTA: angiografia por tomografia de coerência óptica.PRP: plasma rico em plaquetas.EPR: epitélio pigmentar da retina.


Introdução

A atrofia geográfica representa uma fase avançada da degeneração macular relacionada à idade seca.


A condição é caracterizada pela perda progressiva de células do epitélio pigmentar da retina, dos fotorreceptores e da coriocapilar. Essas alterações comprometem principalmente a região central da retina e podem provocar redução importante e progressiva da visão central.


Estima-se que milhões de pessoas em todo o mundo convivam com a atrofia geográfica. Ainda assim, o controle da progressão da doença permanece um grande desafio clínico.


Nos últimos anos, diferentes linhas de pesquisa passaram a investigar medicamentos capazes de interferir na atividade do sistema complemento, componente do sistema imunológico associado à inflamação e à progressão da DMRI.


Entre os tratamentos estudados estão o pegcetacoplan, um inibidor do complemento C3, e o avacincaptad pegol, direcionado ao complemento C5.


Estudos clínicos demonstraram que essas terapias podem reduzir a velocidade de expansão das áreas atróficas em determinados pacientes. Esses resultados contribuíram para a aprovação, nos Estados Unidos, das primeiras terapias farmacológicas voltadas especificamente à atrofia geográfica.


Mesmo com esses avanços, os tratamentos disponíveis não restauram o tecido retiniano já perdido e exigem aplicações intravítreas periódicas. Por isso, ainda existe interesse por estratégias neuroprotetoras e regenerativas.


As plaquetas funcionam como reservatórios naturais de fatores de crescimento. Quando ativadas, liberam substâncias envolvidas na regeneração, na proliferação celular, na modulação inflamatória e na reparação de tecidos.


O plasma rico em plaquetas autólogo já é utilizado em diferentes áreas médicas. Por sua vez, o plasma rico em plaquetas derivado do sangue do cordão umbilical apresenta características particulares, incluindo uma composição padronizável e concentração relevante de fatores de crescimento e citocinas.


Na oftalmologia regenerativa, derivados do sangue do cordão umbilical já vêm sendo estudados ou utilizados em situações como:

  • lesões da superfície ocular;

  • defeitos epiteliais persistentes;

  • úlceras de córnea;

  • ceratite neurotrófica;

  • síndrome do olho seco;

  • recuperação após determinados procedimentos corneanos.


Estudos pré-clínicos também sugerem que os componentes presentes no CB-PRP podem exercer efeitos neuroprotetores sobre células da retina.


Com base nessas propriedades, os pesquisadores avaliaram se uma aplicação sub-retiniana poderia levar os fatores de crescimento para uma região próxima aos fotorreceptores e ao epitélio pigmentar da retina.


O objetivo central não foi comprovar eficácia, mas verificar se a técnica poderia ser realizada de maneira segura e se haveria algum sinal preliminar de preservação estrutural ou funcional.


Métodos

O Estudo Si.Cord foi estruturado como um estudo intervencionista, aberto, não randomizado e realizado em um único centro.

A pesquisa começou em janeiro de 2021 e acompanhou os participantes por, no mínimo, 12 meses.


O protocolo foi conduzido de acordo com os princípios da Declaração de Helsinque e recebeu aprovação do comitê de ética da instituição responsável.

Todos os participantes foram informados sobre os objetivos, riscos e procedimentos antes de assinarem o termo de consentimento livre e esclarecido.


População do estudo

Foram selecionados 13 pacientes com atrofia geográfica bilateral associada à degeneração macular relacionada à idade seca.


Em cada participante, o olho com doença mais avançada foi tratado, enquanto o olho contralateral permaneceu como controle.

Entre os critérios de inclusão estavam:

  • diagnóstico de atrofia geográfica no contexto da DMRI seca;

  • alguma capacidade visual residual acima da percepção luminosa;

  • meios ópticos transparentes;

  • ausência de outras doenças oculares ou sistêmicas capazes de interferir nos resultados.


Entre os critérios de exclusão estavam:

  • idade inferior a 55 anos;

  • doenças oculares inflamatórias;

  • infecções oculares anteriores;

  • presença de catarata significativa;

  • cirurgia de catarata realizada nos seis meses anteriores;

  • glaucoma;

  • retinopatia diabética;

  • edema macular;

  • opacidades importantes dos meios oculares;

  • neovascularização macular identificada pela OCTA.


Todos os pacientes realizaram angiografia por tomografia de coerência óptica antes da inclusão.



Figura 1. Imagens de OCTA e OCT en face de um olho com atrofia geográfica associada à DMRI seca. A delimitação da área atrófica foi utilizada para acompanhar sua progressão durante o estudo.


Intervenção do estudo

Após a triagem, os pacientes foram submetidos à vitrectomia e à aplicação sub-retiniana do CB-PRP.


O produto foi fornecido pelo banco de sangue de cordão umbilical da Fondazione Policlinico Universitario Agostino Gemelli IRCCS.


As unidades utilizadas vieram de doações destinadas inicialmente ao banco de sangue de cordão. Apenas amostras que atendiam aos critérios sanitários e apresentavam resultados negativos para agentes infecciosos foram consideradas.


Foram realizados testes para:

  • vírus da imunodeficiência humana;

  • hepatite B;

  • hepatite C;

  • sífilis;

  • contaminação microbiológica.


O CB-PRP utilizado no estudo foi formado por um conjunto de 15 unidades.

A combinação das unidades teve como objetivo reduzir variações naturais na concentração de fatores de crescimento entre diferentes doadores.

Após o processamento, o material foi dividido em alíquotas estéreis de 1 ml e armazenado a –80 °C até o momento do uso.


Todo o preparo foi realizado por meio de sistemas fechados e conexões estéreis.



Figura 2. Alíquota estéril de 1 ml de CB-PRP descongelada e preparada para aplicação.


Procedimento cirúrgico

A cirurgia foi realizada com vitrectomia pars plana de calibre 23 G e sistema de alta velocidade.

Todos os procedimentos utilizaram o sistema Constellation Vision.

Os pacientes receberam anestesia peribulbar antes da operação.


Durante a vitrectomia:

  1. foram posicionadas três cânulas valvuladas;

  2. a membrana hialoide posterior foi removida quando necessário;

  3. uma agulha sub-retiniana de calibre 41 foi introduzida;

  4. aproximadamente 0,5 ml de CB-PRP foi aplicado no espaço sub-retiniano;

  5. o ponto de aplicação foi escolhido no quadrante inferonasal;

  6. foi realizada vitrectomia periférica;

  7. lesões periféricas, quando identificadas, foram tratadas;

  8. ao final, realizou-se troca fluido-ar.


Após a cirurgia, os pacientes receberam orientações posturais específicas durante os primeiros dias.


O quadrante inferonasal foi escolhido para reduzir o risco de lesões na área macular atrófica durante a formação da bolha sub-retiniana.


Avaliações oftalmológicas

Todos os pacientes passaram por exame oftalmológico completo no início e durante o acompanhamento.

Os exames incluíram:

  • acuidade visual pela escala ETDRS;

  • biomicroscopia do segmento anterior;

  • oftalmoscopia direta e indireta;

  • pressão intraocular;

  • OCT;

  • OCTA;

  • eletrorretinograma focal;

  • potencial evocado visual por cintilação.


As áreas de atrofia foram calculadas por dois especialistas independentes.

A demarcação foi feita com o auxílio de software semiautomático e a concordância entre os avaliadores foi considerada adequada quando o coeficiente de Cohen ultrapassava 0,9.

As medidas foram obtidas tanto nos olhos tratados quanto nos olhos de controle.


Para aumentar a segurança, os cinco primeiros pacientes foram operados com intervalo mínimo de 20 dias entre os procedimentos.


Análise estatística

Os dados foram analisados com os programas SPSS 26 e GraphPad Prism 8.

As variáveis quantitativas foram apresentadas como média e desvio padrão.


Foi utilizada análise de variância de medidas repetidas para comparar:

  • olhos tratados e não tratados;

  • diferentes momentos de acompanhamento;

  • interação entre tratamento e tempo.

Foram avaliados:

  • acuidade visual;

  • espessura macular central;

  • área de atrofia.

O teste de Tukey foi utilizado nas comparações posteriores.

Para os resultados do eletrorretinograma e do potencial evocado visual, utilizou-se o teste t para amostras pareadas.

Valores de p inferiores a 0,05 foram considerados estatisticamente significativos.


Resultados

A idade média dos participantes no momento da cirurgia foi de 74,61 anos.


Acuidade visual

No grupo tratado, a acuidade visual média apresentou melhora inicial durante os primeiros meses, seguida de retorno para valores próximos aos observados antes do procedimento ao final de 12 meses.

Nos olhos não tratados, houve redução progressiva da média de letras ETDRS durante o acompanhamento.

A análise estatística global não demonstrou diferença significativa atribuível ao tratamento.


Figura 3. Evolução da acuidade visual melhor corrigida em olhos tratados e não tratados durante 12 meses. As barras representam o desvio padrão.


Espessura macular central

A espessura macular central apresentou redução gradual nos dois grupos.

Ao final de 12 meses, não houve diferença significativa entre olhos tratados e não tratados.

Entretanto, aos seis meses, a análise post hoc identificou menor espessura macular no grupo controle.

Esse achado pode sugerir uma possível preservação temporária da estrutura macular nos olhos tratados, mas não é suficiente para estabelecer eficácia.

Figura 4. Espessura macular central dos olhos tratados e não tratados ao longo de 1, 3, 6 e 12 meses.


Progressão da área de atrofia

A concordância entre os dois especialistas responsáveis pelas medições foi superior a 90%.

A área de atrofia aumentou nos dois grupos ao longo dos 12 meses.

Nos olhos tratados, a área média evoluiu de 15,16 mm² no início para 17,35 mm² ao final do acompanhamento.

Nos olhos não tratados, passou de 8,47 mm² para 11,59 mm².

Os pesquisadores observaram uma possível tendência de progressão mais lenta nos olhos tratados em alguns momentos iniciais, especialmente entre o primeiro e o terceiro mês.

Entretanto, como os olhos tratados já apresentavam doença mais avançada no início, essa diferença deve ser interpretada com cautela.


Figura 5. Avaliação semiautomática da área de atrofia geográfica em imagens de OCT en face e angio-OCT, comparando o início do estudo com o sexto mês.



Tabela 1 — Evolução dos principais parâmetros

Olhos tratados

Parâmetro

Linha de base

1 mês

3 meses

6 meses

12 meses

Valor de p

Acuidade visual — letras ETDRS

34,46 ± 20,8

40,84 ± 20,52

40,07 ± 20,34

39,38 ± 19,84

35,84 ± 18,38

0,06

Espessura macular central — µm

120,54 ± 52,16

119,31 ± 50,91

118 ± 49,99

117,46 ± 53,91

111,23 ± 52,37

0,03

Área de atrofia — mm²

15,16 ± 9,92

15,18 ± 9,92

15,74 ± 9,83

16,98 ± 9,88

17,35 ± 9,78

< 0,0001

Progressão anual transformada pela raiz quadrada

0,2709

Olhos não tratados

Parâmetro

Linha de base

1 mês

3 meses

6 meses

12 meses

Valor de p

Acuidade visual — letras ETDRS

53 ± 21,1

51,54 ± 20,99

46,62 ± 19,47

46,85 ± 18,58

43,92 ± 17,97

0,02

Espessura macular central — µm

119,31 ± 58,52

118,92 ± 56,16

117,46 ± 58,52

107,07 ± 54,97

98,85 ± 54,55

< 0,001

Área de atrofia — mm²

8,47 ± 4,52

9,47 ± 4,85

10,00 ± 4,86

11,17 ± 4,91

11,59 ± 4,75

< 0,0001

Progressão anual transformada pela raiz quadrada

0,4946

Exames funcionais

As amplitudes médias do eletrorretinograma focal e do potencial evocado visual diminuíram aos seis meses tanto nos olhos tratados quanto nos olhos de controle.

Aos 12 meses, o comportamento das respostas funcionais já não apresentava o mesmo padrão observado no sexto mês.

Os autores consideram a possibilidade de que alterações transitórias estejam relacionadas à ação temporária dos fatores de crescimento.

No entanto, como mudanças semelhantes também ocorreram nos olhos não tratados, não foi possível estabelecer uma relação direta com o CB-PRP.


Figura 6. Amplitude do eletrorretinograma focal em olhos tratados e não tratados durante o acompanhamento.



Legenda sugerida:Figura 7. Amplitude do potencial evocado visual por cintilação em olhos tratados e não tratados.


Segurança

Nenhum dos pacientes apresentou complicações diretamente relacionadas à aplicação sub-retiniana do CB-PRP durante os 12 meses.

Não foram observados:

  • endoftalmite;

  • uveíte;

  • inflamação relevante;

  • descolamento de retina;

  • lesões retinianas relacionadas ao produto;

  • eventos adversos que exigissem interrupção do estudo.

Esse resultado sustenta o principal objetivo da pesquisa: demonstrar a viabilidade e a segurança inicial da técnica.


Discussão

A pesquisa sobre atrofia geográfica vem avançando em diferentes frentes.

Durante vários anos, agentes anti-inflamatórios e inibidores do sistema complemento foram avaliados como alternativas para reduzir a progressão da doença.

Diversas substâncias não atingiram os resultados esperados em estudos clínicos. Outras, como o pegcetacoplan e o avacincaptad pegol, demonstraram capacidade de reduzir a velocidade de crescimento da área atrófica.

Essas terapias representaram um avanço importante, mas não recuperam o tecido já perdido e dependem de aplicações intravítreas repetidas.

Nesse contexto, estratégias neuroprotetoras continuam despertando interesse.

O CB-PRP contém uma ampla variedade de fatores de crescimento e mediadores biológicos, entre eles:

  • fator de crescimento derivado de plaquetas;

  • fator de crescimento semelhante à insulina;

  • fator de crescimento epidérmico;

  • fator de crescimento de hepatócitos;

  • fator de crescimento transformador;

  • fator de crescimento de fibroblastos;

  • fator de crescimento endotelial vascular;

  • fator de crescimento nervoso;

  • diferentes interleucinas.


Essas substâncias participam de processos relacionados à cicatrização, regeneração, sobrevivência celular e modulação da resposta inflamatória.

Na oftalmologia, derivados do sangue do cordão umbilical já são empregados ou investigados principalmente em doenças da superfície ocular.

Existem relatos de aplicação em:

  • úlceras de córnea;

  • síndrome do olho seco;

  • ceratite neurotrófica;

  • lesões químicas;

  • defeitos epiteliais persistentes;

  • recuperação após procedimentos corneanos.


O estudo atual amplia essa discussão ao investigar a administração sub-retiniana.

Os resultados mostraram que uma única injeção foi bem tolerada durante 12 meses.

Também foi identificado um possível sinal de progressão mais lenta da atrofia em alguns períodos iniciais. Contudo, esse dado não pode ser considerado uma demonstração de eficácia.

Entre os motivos estão:

  • número reduzido de participantes;

  • ausência de randomização;

  • diferenças iniciais entre os olhos tratados e os controles;

  • escolha do olho mais afetado para receber o tratamento;

  • impossibilidade de separar completamente o efeito do CB-PRP do efeito da própria vitrectomia.


Os pesquisadores também observaram alterações estruturais nas bordas da área atrófica, interpretadas como uma possível remodelação do epitélio pigmentar da retina.


Figura 8. OCT estrutural antes da aplicação e após três e seis meses. As imagens mostram alterações na borda da área atrófica, interpretadas pelos autores como possível remodelação do epitélio pigmentar da retina.


A via sub-retiniana foi escolhida para superar a barreira hematorretiniana interna e colocar os fatores biológicos próximos ao tecido-alvo.


Esse tipo de administração já é utilizado em algumas terapias gênicas e celulares.

Apesar da segurança observada, a aplicação sub-retiniana exige procedimento cirúrgico e não favorece a repetição frequente do tratamento.


Por isso, os autores sugerem que outras vias de administração sejam avaliadas em pesquisas futuras.


Comparação com tratamentos inibidores do complemento

O estudo faz uma comparação exploratória entre a progressão da atrofia observada com o CB-PRP e dados publicados sobre inibidores do complemento.


No entanto, as comparações devem ser interpretadas com muita cautela porque os desenhos dos estudos são diferentes.


O pegcetacoplan e o avacincaptad pegol foram avaliados em ensaios maiores, controlados e com aplicações intravítreas periódicas.


No estudo Si.Cord, foi realizada apenas uma aplicação sub-retiniana em um grupo pequeno e sem randomização.


Portanto, não é possível concluir que o CB-PRP seja equivalente, superior ou inferior a esses tratamentos.


Acuidade visual

Nos olhos tratados, a acuidade visual apresentou melhora inicial e depois retornou para níveis próximos aos valores de base.

Os autores consideram que parte dessa melhora inicial pode estar relacionada à remoção do vítreo durante a cirurgia.

Uma vitrectomia pode tornar os meios oculares mais transparentes e produzir pequeno ganho visual em alguns pacientes.

Nos olhos de controle, houve redução da visão ao longo de 12 meses, comportamento compatível com a história natural da atrofia geográfica.


Alterações estruturais

A espessura macular central não apresentou diferença significativa entre os grupos ao final do estudo.

A diferença observada aos seis meses pode representar um possível efeito transitório, mas precisa ser confirmada em uma amostra maior.

Em relação à área de atrofia, os olhos tratados mostraram crescimento mais lento em alguns momentos iniciais.

Contudo, como esses olhos já apresentavam lesões maiores e doença mais avançada, a velocidade de expansão poderia naturalmente ser diferente.

Esse fator dificulta a interpretação dos resultados.


Resultados eletrofisiológicos

Os exames funcionais revelaram redução de amplitude aos seis meses.

Os autores levantam a hipótese de que uma modulação temporária da sensibilidade retiniana poderia estar associada à atividade dos fatores de crescimento.

Entretanto, como o mesmo fenômeno também ocorreu nos olhos não tratados, não há evidência suficiente para atribuí-lo ao CB-PRP.

Outra hipótese é que o efeito biológico do produto tenha duração limitada pela meia-vida dos fatores de crescimento.

Estudos com acompanhamento mais longo e diferentes intervalos de avaliação serão necessários para esclarecer esse ponto.


Limitações

O estudo apresenta limitações importantes:

  1. foi realizado em um único centro;

  2. não houve randomização;

  3. o estudo foi aberto;

  4. apenas 13 pacientes participaram;

  5. os olhos tratados já apresentavam doença mais avançada;

  6. havia diferenças iniciais de acuidade visual e tamanho da lesão entre os grupos;

  7. o acompanhamento foi limitado a 12 meses;

  8. foi feita apenas uma aplicação;

  9. a via sub-retiniana dificulta aplicações repetidas;

  10. a vitrectomia pode ter influenciado alguns resultados visuais.

Essas limitações impedem conclusões definitivas sobre eficácia.


Pontos fortes

Um dos principais pontos fortes foi a padronização do CB-PRP.

O produto utilizado resultou da combinação de 15 unidades de sangue de cordão umbilical.

Esse processo reduziu a variabilidade entre doadores e permitiu que todas as alíquotas apresentassem perfil biológico mais homogêneo.

Outro ponto positivo foi o acompanhamento comparativo do olho tratado e do olho contralateral em cada paciente.

A avaliação por dois especialistas independentes também aumentou a confiabilidade das medidas da área de atrofia.


Considerações finais

O Estudo Si.Cord apresentou a primeira evidência clínica de que uma injeção sub-retiniana de CB-PRP pode ser realizada com segurança em pacientes com atrofia geográfica associada à DMRI seca.

Durante 12 meses, não foram observadas complicações relevantes relacionadas ao produto ou ao procedimento.

Os resultados também mostraram alguns sinais exploratórios que podem justificar novas pesquisas, entre eles:

  • possível menor velocidade de progressão da área atrófica em determinados períodos;

  • possível preservação temporária da espessura macular;

  • alterações estruturais nas margens da atrofia.

Esses achados, porém, não comprovam benefício terapêutico.

Serão necessários estudos maiores, randomizados, controlados e com acompanhamento prolongado para determinar se o CB-PRP pode exercer um papel real na neuroproteção da retina.

Também será importante investigar vias de administração menos invasivas e mais adequadas a tratamentos repetidos.


Agradecimentos

Os autores agradeceram o apoio do Ministero della Salute – Ricerca Corrente 2023.


Dados suplementares

Vídeo do procedimento


Legenda sugerida:Vídeo 1. Vitrectomia de calibre 23 G seguida da aplicação sub-retiniana de CB-PRP com agulha de calibre 41 no quadrante nasal da retina.


Referências

As referências científicas devem ser mantidas conforme o artigo original, preservando a numeração utilizada ao longo do texto.

Para publicação em página institucional ou blog, recomenda-se inserir ao final:

  1. a referência completa do artigo principal;

  2. o DOI;

  3. as referências científicas citadas;

  4. um aviso de que o conteúdo tem caráter informativo;

  5. a orientação de que qualquer tratamento depende de avaliação médica individualizada.


Aviso importante

Este conteúdo apresenta os resultados de um estudo piloto com número reduzido de participantes.

O CB-PRP sub-retiniano permanece uma abordagem experimental para atrofia geográfica e não deve ser apresentado como tratamento comprovado, cura ou substituto das terapias autorizadas.

A indicação de qualquer procedimento deve ser feita exclusivamente por médico oftalmolo

 
 
 

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