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Plasma Rico em Plaquetas (PRP) na Paralisia Cerebral: um relato de caso que abre novas perspectivas para a medicina regenerativa

A medicina regenerativa vem transformando a forma como enxergamos o tratamento de diversas doenças. Entre as terapias que mais despertam interesse científico está o Plasma Rico em Plaquetas (PRP), amplamente utilizado em ortopedia, odontologia e medicina esportiva por seu potencial de estimular processos naturais de reparação dos tecidos.


Nos últimos anos, pesquisadores passaram a investigar uma nova possibilidade: o uso do PRP em doenças neurológicas, aproveitando os fatores de crescimento presentes nas plaquetas para estimular mecanismos de neuroproteção e neuroplasticidade.


Um estudo publicado na revista American Journal of Case Reports apresentou um caso clínico que chamou a atenção da comunidade científica ao descrever a evolução de uma criança com paralisia cerebral tratada com uma infusão intravenosa de PRP.


O que é a paralisia cerebral?

A paralisia cerebral é uma condição neurológica permanente causada por uma lesão no cérebro em desenvolvimento, geralmente ocorrida durante a gestação, no parto ou nos primeiros meses de vida.

Uma das causas mais frequentes é a hipóxia perinatal, situação em que o cérebro do bebê recebe quantidade insuficiente de oxigênio durante o nascimento.

Dependendo da extensão da lesão, podem surgir diferentes manifestações, como:

  • alterações motoras;

  • espasticidade;

  • dificuldades cognitivas;

  • atraso no desenvolvimento;

  • alterações da linguagem;

  • crises convulsivas.

Embora os tratamentos atuais possam melhorar significativamente a qualidade de vida, ainda não existe uma terapia capaz de regenerar completamente o tecido cerebral lesionado.


O que é o Plasma Rico em Plaquetas (PRP)?

O PRP é obtido a partir do próprio sangue do paciente. Após um processo de centrifugação, ocorre a concentração das plaquetas em um pequeno volume de plasma.

As plaquetas não participam apenas da coagulação sanguínea. Elas armazenam proteínas biologicamente ativas conhecidas como fatores de crescimento, responsáveis por estimular a comunicação entre células e ativar mecanismos naturais de reparação dos tecidos.

Entre os principais fatores presentes no PRP destacam-se:

  • PDGF (Platelet-Derived Growth Factor), relacionado à proliferação celular e regeneração tecidual;

  • VEGF (Vascular Endothelial Growth Factor), importante para a formação de novos vasos sanguíneos e suporte metabólico dos tecidos;

  • TGF-β (Transforming Growth Factor Beta), envolvido na modulação da inflamação e cicatrização;

  • IGF-1 (Insulin-like Growth Factor 1), associado à sobrevivência neuronal, plasticidade cerebral e desenvolvimento celular.

Essas moléculas despertaram o interesse da medicina regenerativa devido ao seu potencial de estimular processos biológicos essenciais para o reparo dos tecidos.


O estudo publicado

Os autores relataram o caso de um menino de 6 anos, diagnosticado com paralisia cerebral aos dois meses de idade, decorrente de hipóxia perinatal, que apresentava tetraparesia espástica e comprometimento cognitivo moderado. Como parte da abordagem terapêutica, foi realizada uma infusão intravenosa única de 25 mL de Plasma Rico em Plaquetas (PRP).


O paciente foi acompanhado por meio de avaliações clínicas, laboratoriais e radiológicas realizadas antes do procedimento e novamente após 3 e 6 meses, permitindo a análise da evolução clínica ao longo do tempo. Vale destacar que este tratamento foi realizado como um relato de caso, não fazendo parte de um ensaio clínico controlado. A intervenção foi previamente autorizada pelos representantes legais da criança.


Para a preparação do PRP, foram coletados 60 mL de sangue autólogo. Antes da infusão, o material passou por uma rigorosa avaliação laboratorial, incluindo análises bioquímicas, hemograma completo, sorologias e dosagem dos principais fatores de crescimento plasmáticos, com o objetivo de garantir a segurança e a qualidade do produto utilizado.


O Plasma Rico em Plaquetas foi obtido por meio de um protocolo de centrifugação única, realizado a 3.500 rpm durante 30 minutos, a 18 °C, resultando em uma elevada concentração de plaquetas e fatores de crescimento, que posteriormente foram administrados por via intravenosa.



Após a preparação do PRP, foi realizado um acesso venoso periférico e a infusão intravenosa ocorreu em até 30 minutos após sua obtenção. O acompanhamento laboratorial incluiu a dosagem dos fatores de crescimento séricos por meio da técnica ELISA e a contagem de leucócitos, realizadas antes da aplicação, após 24 horas e nos acompanhamentos de 3 e 6 meses. Os resultados dessas análises estão apresentados nas Figuras 1 e 2.




Para avaliar a evolução neurológica, o paciente foi reavaliado 3 e 6 meses após o tratamento por meio de escalas cognitivas padronizadas, incluindo Bayley, Battelle, MSCA, Kaufman ABC e Stanford-Binet, comparando os resultados com as avaliações realizadas antes da infusão do PRP. Além disso, foram realizados exames de PET cerebral imediatamente antes do procedimento e novamente após 6 meses, permitindo a análise da atividade metabólica cerebral. As imagens e os respectivos laudos estão apresentados na Figura 3.


O acompanhamento clínico, laboratorial e por exames de imagem demonstrou uma evolução favorável após a infusão do PRP. Os níveis plasmáticos dos fatores de crescimento atingiram seu pico 24 horas após o tratamento e permaneceram elevados, acima dos valores basais, durante os acompanhamentos realizados aos 3 e 6 meses. Paralelamente, o paciente apresentou melhora progressiva dos sintomas, principalmente na esfera cognitiva e neuropsicomotora, evidenciada pela maior capacidade de ingerir alimentos sólidos, aprimoramento da coordenação motora, evolução da linguagem com a emissão de palavras de duas e três sílabas e melhor acompanhamento visual de objetos em movimento.


Essas melhoras já eram perceptíveis na avaliação de três meses e continuaram evoluindo até o sexto mês. A avaliação por PET cerebral revelou aumento difuso do metabolismo da glicose em todo o córtex cerebral, um achado compatível com processos de plasticidade neuronal, sem alterações significativas nas estruturas cerebrais profundas, como o hipocampo e a amígdala. As imagens e os respectivos laudos podem ser observados na Figura 3.


Discussão

Os avanços da medicina regenerativa têm transformado diversas áreas da prática clínica, oferecendo alternativas terapêuticas menos invasivas, com baixo índice de efeitos adversos e potencial para estimular os mecanismos naturais de reparação dos tecidos. Apesar dos resultados promissores, os autores ressaltam que ainda são necessários ensaios clínicos bem delineados para estabelecer protocolos padronizados e confirmar a eficácia dessas terapias em diferentes aplicações médicas.


Atualmente, as evidências mais consistentes sobre o uso do Plasma Rico em Plaquetas (PRP) concentram-se na odontologia, especialmente na regeneração do leito alveolar após procedimentos cirúrgicos, e na ortopedia e traumatologia, onde o PRP é empregado no tratamento de artropatias, tendinopatias, lesões ligamentares e meniscais. Embora seu uso esteja se expandindo para outras especialidades, muitas dessas aplicações ainda se baseiam em evidências científicas preliminares.


Entre os campos mais promissores para o emprego do PRP estão a neurologia, a neuroendocrinologia e a neurorreabilitação. Isso se deve ao fato de que os fatores de crescimento derivados das plaquetas apresentam propriedades neuroregenerativas, neuroprotetoras, antiapoptóticas, imunomoduladoras e neurotróficas, capazes de favorecer mecanismos relacionados à sobrevivência neuronal, à plasticidade cerebral e ao reparo do tecido nervoso. Essas características tornam o PRP uma estratégia potencialmente interessante para doenças associadas à perda neuronal, como a doença de Alzheimer, o acidente vascular cerebral (AVC), as lesões medulares e a paralisia cerebral decorrente de hipóxia ou anóxia.


No caso específico da paralisia cerebral, a recuperação espontânea é incomum, uma vez que a hipóxia provoca danos permanentes aos neurônios e às células da glia. Estudos anteriores demonstraram que pacientes tratados com hormônio do crescimento (GH) apresentaram melhora funcional, principalmente nas funções cognitivas, incluindo memória, linguagem, capacidade de executar tarefas mais complexas e aquisição de novas habilidades. Esses benefícios estão relacionados ao aumento de fatores de crescimento, como IGF-1, PDGF e TGF-β, moléculas que exercem importante papel na neuroproteção, na diferenciação celular, na quimiotaxia e na neuroplasticidade.


Entretanto, a terapia com hormônio do crescimento apresenta limitações importantes, como o elevado custo, a necessidade de aplicações repetidas e potenciais efeitos adversos. Nesse contexto, o PRP surge como uma alternativa promissora, por concentrar naturalmente esses fatores de crescimento em um produto autólogo, obtido do próprio paciente. Segundo os autores, uma única aplicação pode manter níveis plasmáticos elevados dessas proteínas por um período prolongado, produzindo um efeito biológico semelhante ao observado com o hormônio do crescimento, porém com menor custo e sem os potenciais riscos associados ao uso prolongado de fatores sintéticos. Ainda assim, os pesquisadores reforçam que estudos clínicos mais robustos são indispensáveis para confirmar sua eficácia e segurança em pacientes com doenças neurológicas.


Conclusão

O relato de caso publicado demonstra que a administração intravenosa de Plasma Rico em Plaquetas foi bem tolerada e esteve associada, nesse paciente, à melhora clínica e a alterações metabólicas cerebrais observadas por exames de imagem.


No entanto, esses resultados devem ser interpretados com cautela. O estudo representa uma evidência inicial, que reforça a necessidade de pesquisas clínicas mais amplas para determinar a real eficácia, segurança e aplicabilidade do PRP em pacientes com paralisia cerebral.


À medida que novas evidências forem produzidas, a medicina regenerativa poderá ampliar seu papel no tratamento de doenças neurológicas, oferecendo novas perspectivas para pacientes e profissionais da saúde.


Referência científica

Alcaraz J, Oliver A, Sánchez JM. Platelet-Rich Plasma in a Patient with Cerebral Palsy. American Journal of Case Reports. 2015;16:469-475. PMCID: PMC4509427.

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